Doping cognitivo: a busca perigosa pelo aperfeiçoamento mental
O uso de substâncias para melhorar a performance cerebral está em alta, mas os riscos podem superar os benefícios. Explore as complexidades éticas e os perigos de uma prática crescente entre estudantes e profissionais, que desafia os limites da medicina e da moralidade.
A pressão por desempenho: em um mundo cada vez mais acelerado, muitos recorrem ao doping cognitivo na busca de aprimoramento mental, enfrentando riscos e dilemas éticos.
Está muito em alta a procura por suplementos, medicamentos e técnicas, principalmente por estudantes e executivos. Aprimoramento Farmacológico Cognitivo (AFC) é o termo técnico que define o uso de substâncias psicoativas (principalmente os estimulantes) por pessoas saudáveis com o propósito de melhorar o desempenho cerebral. Neste caso, pessoas sem qualquer diagnóstico médico utilizam estas substâncias que na medicina tradicional seriam utilizadas somente em pessoas que apresentem um transtorno psiquiátrico.
Os efeitos desejados com o uso destas medicações são
melhora da memória/retenção de informações,
Aumento do grau de alerta,
Melhora da atenção (ou seja, da capacidade de foco em determinado assunto ou atividade),
Velocidade de raciocínio
Facilidade para tomada de decisões
Doping cognitivo refere-se particularmente ao uso feito para fins competitivos. Estudantes que utilizam estimulantes para melhorar a atenção, memória, criatividade ou aprendizagem poderiam se enquadrar nessa categoria quando visam superar seus colegas. O doping cognitivo é semelhante ao doping praticado por atletas, mas o primeiro potencializa principalmente a performance cognitiva e o segundo, a performance física.
O dilema ético do doping cognitivo: enquanto a pressão por desempenho aumenta, a linha entre necessidade e competição se torna cada vez mais tênue.
Além de estudantes, cada vez mais concurseiros e profissionais ao redor do mundo fazem uso de substâncias estimulantes, o que nos levanta a questão: o uso de drogas para a melhora da cognição é aceitável eticamente na ausência de doenças? Não há uma resposta definitiva. Pensando em argumentos para o sim e para o não, podemos levantar algumas ideias. Por um lado, há uma crescente pressão social pela desestigmatização do uso de estimulantes; por outro argumenta-se que esse uso pode ser injusto quando há competição. Nosso modelo de sociedade focado na eficiência e produtividade pressiona os estudantes e os trabalhadores a altos níveis de competitividade, o que os faz ignorar os riscos associados ao uso ou não ponderar outras possibilidades, como a prática de exercícios físicos ou o uso de melhores métodos de estudo.
No Brasil não há uma legislação específica sobre o uso de medicamentos para melhora cognitiva, embora alguns estimulantes, como o metilfenidato (princípio ativo da Ritalina), sejam comercializados apenas com receita médica. A princípio, os médicos não estão legalmente proibidos de realizar AFC, mas tendem a estar moralmente impedidos de realizar doping cognitivo. Realizar ou não AFC é uma discussão que adentra uma questão ética da medicina: apenas curar/prevenir ou também melhorar e expandir nossas capacidades? Na primeira opção consideramos a medicina como um campo de tratamento, cura e prevenção de doenças. Já na medicina cosmética busca-se expandir habilidades/qualidades e permitir que os próprios indivíduos decidam que riscos querem correr, inclusive o de usarem psicofármacos com fins de expansão das suas capacidades. Pegando como exemplo a cirurgia plástica, poderíamos questionar se é justo alguém participar de um concurso de beleza tendo feito uma cirurgia facial. A solução vai além da pesquisa empírica e não pode ser cientificamente resolvida, por ser também uma questão ética e moral.
Pesquisas sobre AFC podem nos informar dos riscos e benefícios associados, permitindo que profissionais de saúde e pacientes tomem decisões informadas. As autoridades também podem estabelecer regulamentos e diretrizes baseadas em evidências que orientem profissionais e a população de como agir.
Prevalência e evidência de eficácia
A prevalência de doping cognitivo varia conforme o país, a população específica estudada (ex.: estudantes universitários) e a definição utilizada. Entre estudantes há prevalência entre 1,3% e 33% (1). As principais substâncias utilizadas para doping podem ser divididas em três categorias:
de venda livre – café, energéticos, álcool e cigarro: utilizados para se manter acordado ou otimizar a concentração.
medicamentos prescritos – estimulantes, tais como o metilfenidato ou a lisdexanfetamina (Ritalina, Concerta e Venvanse) que são medicamentos do grupo das anfetaminas, utilizados para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade: para aumentar a performance de aprendizado, concentração e memória.
substâncias psicoativas ilegais – anfetaminas ilegais (“rebites”), muito utilizados para aumentar a atenção entre caminhoneiros.
O doping cognitivo abrange desde cafeína até estimulantes prescritos e ilegais, com prevalência variando amplamente entre estudantes.
Todas as principais drogas são eficazes em indivíduos saudáveis, mas em nível de efeito baixo a moderado (3,4). O aumento na motivação e energia também podem melhorar a performance cognitiva. Contudo, sabe-se que a melhora encontrada em certas áreas da cognição pode estar associada a uma degradação de outras (3,4), por exemplo, ao aumentar a memória imediata pode-se ter uma queda na performance da aprendizagem.
Todas as principais drogas são eficazes em indivíduos saudáveis, mas em nível de efeito baixo a moderado (3,4). O aumento na motivação e energia também podem melhorar a performance cognitiva. Contudo, sabe-se que a melhora encontrada em certas áreas da cognição pode estar associada a uma degradação de outras (3,4), por exemplo, ao aumentar a memória imediata pode-se ter uma queda na performance da aprendizagem.
Riscos e contraindicações
Algumas situações predizem risco aumentado de uso nocivo ou do desenvolvimento de transtorno por uso de substâncias (que anteriormente em termos técnicos chamávamos de abuso ou dependência química) com o uso de estimulantes no AFC:
quem está em tratamento de transtorno mental;
faz uso contínuo de álcool e outras drogas;
pessoas “estressadas”;
quem tem doenças clínicas ou tem fatores de risco cardiológicos (tabagismo, obesidade, diabetes, sedentarismo, hipercolesterolemia, etc.)
Os riscos variam de acordo com cada medicamento utilizado, assim como os efeitos adversos. O uso de estimulantes está associado a riscos cardiológicos e psiquiátricos (psicose, abuso e dependência química); o uso de modafinil, que é utilizado no tratamento da narcolepsia e da apneia do sono, tem riscos dermatológicos associados; a atomoxetina apresenta risco de dano hepático... Ainda, alguns dos efeitos adversos destas medicações podem ser irritabilidade, distúrbios de sono, dor de cabeça, perda de apetite, taquicardia e labilidade de humor ou também humor deprimido. Como comentado acima, há a chance de desenvolver dependência ou um uso abusivo com os estimulantes (3). Não existem pesquisas investigando o uso prolongado de AFC em populações saudáveis. Estudos sobre riscos e efetividade também são escassos.
Recomendações
Acho bem interessante encorajar a pessoa a refletir sobre seu modo de vida e sobre a sociedade enquanto construtora dessa demanda.
Profissionais de saúde devem discutir amplamente os riscos envolvidos e acompanhar o paciente caso este insista em fazer uso.
Pode-se sugerir alternativas não-farmacológicas ou encaminhar o paciente para serviços que o ajudem a lidar com o estresse e a pressão por performance.
Novos estudos devem ser feitos e novas regulamentações devem ser desenvolvidas, para decidir que forma de aprimoramento cognitivo é aceitável, em que condições, e para que subgrupos.
Reflexão e acompanhamento médico são essenciais para evitar os riscos do doping cognitivo e explorar alternativas mais seguras.
Essa prática tem riscos e benefícios, e atualmente os riscos parecem maiores do que os benefícios para a maioria da população. O uso de medicamentos controlados sem acompanhamento por profissionais de saúde pode gerar complicações médicas e até mesmo levar à dependência (2). Portanto, se você pensa em fazer uso, procure um profissional de saúde, mantenha-se informado e considere possibilidades alternativas para abordar o problema. Não cabe ao psiquiatra julgar, mas sim entender e ajudar o paciente, abordando o problema de uma maneira individualizada.
Carton, L., Cabé, N., Ménard, O, et al. (2018). Pharmaceutical cognitive doping in students: A chimeric way to get-a-head? Thérapie, 73(4), 331-339.
Sahakian, B. J. & Morein-Zamir, S. (2015). Pharmacological cognitive enhancement: treatment of neuropsychiatric disorders and lifestyle use by healthy people. Lancet Psychiatry, 2(4), 357–362. >.